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sexta-feira, dezembro 09, 2011

O Sol,um vaso e a flor, por Wagner Bezerra Pontes




Fragmento de texto por Wagner Bezerra Pontes

O dia fluíra numa alga marinha solta e perdida sob as ondas do mar. E toda aquela existência salobre dos arrecifes brilhara nas retinas a lembrança de um vaso e sua flor esquecidas no fundo do jardim de uma casa solitária. A qual buscava com toda delicadeza a retirada de sua poeira existencialmente marginal, no intuito de resplandecer o ar mais puro a aquela humilde e amaldiçoada princesa.

Uma gata caçava um pequeno rato, o qual desobedecera às regras de seu submundo. A prole felina dormia tranquila sob uma caixa de papelão travestida de veludo. E enquanto observava o silêncio da estrada, dos carros, das arvores, do chão e do vento. Um sussurro, quem dera, pudera invadir seu pensamento: 'Te quero!' Mas os olhos cada vez mais fatigados de cansaço e solidão, perguntariam de onde viera toda aquela ação. E num expirar de sua mão, descansara o lápis sob a mesa, ao brotar uma deliciosa e insustentável leveza: 

'Não, ela nascera como o primeiro raio de sol de uma manhã indecifrável aos olhos de uma criança abandonada, teimando ter forças para queimar seu coração petrificado. Diante das consequências camusianas que sofrera, e de toda aquela sua imensidão estrangeira. Não pudera ver mais, respirar mais, sentir mais. E como uma rocha que fizera de seu ar, o seu relicário. Decidira correr ao ver a última fração de moléculas e cristais suspensos, subira as escadas do infinito para tentar vencer a tempestade que teimava transbordar do copo de sua alma-inimigo...'



quarta-feira, dezembro 07, 2011

Tempos Modernos e o grande lema, por Wagner Bezerra


 Desta vez apresento uma análise sobre um grande clássico da sétima-arte, ainda nos tempo do cinema mudo: Tempos Modernos. Procurando abordar de maneira histórico, politico e sociológica a análise pretende configurar um olhar sobre uma época iniciada e que continua com certo vigor na sociedade contemporânea. Abrindo assim, uma outra questão para uma próxima análise fílmica: Qual seria a verdadeira realidade do homem?! Já que muitas vezes este necessite recriar um mundo e confirmá-lo a partir deste extra-real, isto é, o ficcional pode ter uma parcela de real?! Quais seriam os limites do real e do ficcional? O que é real?!

Tempos Modernos e o grande lema
Download do filme Tempos Modernos

  O capitalismo surgiu na metade do século XVIII, findando os últimos vestígios do feudalismo na sociedade. Trouxera mudanças significativas na vida do homem tanto na política, quanto na sociedade e no meio cultural. Levando-nos a refletir e questionar o surgimento de tal acontecimento: Afinal para que serve o capitalismo? O seu surgimento trouxe vantagens ao homem? Como permaneceram estes diante desta nova organização econômica? E é através do último filme mudo de Charlie Chaplin, Tempos Modernos (1936), que procurarei destacar de forma reflexiva três aspectos vivenciados pela personagem do filme. Assim relacionando suas vivências aparentemente ‘ficcionais’, com a realidade do novo segmento econômico (capitalismo) surgido na época em questão e que perdura até os dias atuais.
  No inicio do filme há uma assertiva: “Uma história da indústria, da iniciativa privada e da humanidade em busca da felicidade.” Levando o espectador à reflexão do seu conhecimento prévio sobre os ‘Tempos Modernos’. O qual induz a lembrança de que a partir da Revolução Industrial um novo segmento político, econômico e cultural viera a modificar toda a sociedade.
  A Revolução Industrial surgira primeiramente com o intuito de alterar profundamente a antiga sociedade econômica, a nobreza e o clero, as quais eram as maiores detentores de riqueza, a terra. Pois a sociedade sendo basicamente agrária não existia outros meios de organização trabalhista. Mas eis que surge uma nova classe social, os comerciantes e artesãos, os quais trabalhavam nos centros urbanos que começavam a surgir. Investindo nas primeiras indústrias de cunho manufatureiro, as quais já tinham divisões de trabalhos e ‘inúmeras atividades’ técnicas nos desempenhos de seus empregados às máquinas.
   Na primeira parte do filme é visível uma crítica metaforizada ao novo modo de produção capitalista. Onde o homem-proletariado ao sair da estação do metrô em busca da troca de sua força de trabalho por salário, é comparado ao rebanho de ovelhas que sai do curral, classificando-os assim como um segmento inferior da sociedade dominantemente burguesa.
   Em seguida imagens do movimento urbano, populacional e industrial se opõem e somam-se em relação à expansão e crescimento da cidade e sua população a partir do surgimento da indústria, fator relevante neste processo capaz de nos fazer refletir sobre o momento histórico do êxodo rural. Onde o desenvolvimento da indústria e a mecanização dos campos, obrigaram grande parte da população rural a deslocar-se para a zona urbana em busca de oportunidades trabalhistas nas fábricas. Inconscientemente gerando um conceito de que vida feliz seria através da troca de força de trabalho por um salário, pois a partir dele o consumo viria ser o próximo passo.
  Há também um momento onde nos é mostrado o presidente da indústria, em que nosso personagem principal intitulado no filme: industrial worker e mais conhecido como Carlitos, tem um poder onisciente sobre seus trabalhadores. Sendo capaz de verificar, a partir de câmeras, como anda o processo de produção de sua indústria e se o desempenho de seus operários viria a ser positivo. Controlando a velocidade com que devem ser fabricados os produtos, assim gerando certo desconforto e um processo de maquinação do homem-proletariado. Entendendo como a repetição do mesmo movimento na área executada pelo empregado. Já que cada indivíduo seria responsável e especializado por uma função na produção de bens, e se um viesse a falhar todo o processo não desencadearia corretamente.
  O filme trata em especifico o momento após, no qual os Estados Unidos sofrera com a grande crise econômica, a quebra da Bolsade Valores de Nova York (1929). Já que nos E.U.A se concentrava grande parte do poder econômico mundial. Milhares de pessoas em todo mundo começaram a sofrer com tal crise; perderam seus empregos, pois empresas com alto nível de produção acelerada, começavam a encontrar dificuldades na venda dos produtos recém fabricados. Levando empresas a estocarem ou até destruírem o excesso de produção, prejudicando assim o seu próprio sistema financeiro e o não rendimento na manutenção do trabalhador. Devido a pouca existência de compradores para o suprimento dos produtos, os déficits das empresas começaram a crescer e muitas vieram a falir e fechar as portas. A chamada Grande Depressão instalou-se no ‘peito do mundo’ para favorecer o caos nas correntes políticas e sociais de toda Europa e América.
   Na segunda parte do filme podemos perceber este acontecimento histórico, onde uma grande revolta da população trabalhista, na luta pelos seus direitos como cidadão. Vem a reclamar e exigir providências do Estado ou empresários (burguesia), os quais eram os novos representantes no desenvolvimento da economia de um país. Onde nosso protagonista, atuado por Charlie Chaplin, é confundido como o líder das manifestações dos desempregados, e preso por reivindicar através de cartazes a exigência de mais empregos e igualdades entre as classes sociais.
  Em seguida vemos o quanto à decadência estava em alta na sociedade burguesa. Após o cumprimento da pena de Carlitos, o próprio é avisado de sua liberdade, contrariando a expectativa do delegado ele expõe abertamente a sua preferência em permanecer na prisão. Podemos entender assim, que a causa do ‘conforto’ proporcionado pela comida, cama e roupa lavada existente em tal delegação, seria um privilégio do qual os cidadãos desempregados e pobres não têm fora desta instituição. E a condição de não ter que trabalhar, ou estressar-se com a velocidade e o caos do mundo moderno (urbano-industrial) seria mais satisfatório ao homem-personagem.
   A terceira e última parte a ser pontuada, seria a crítica ferrenha aos costumes da cultura burguesa. Onde o Carlitos ao conhecer uma garota órfã, relata num devaneio em frente a uma casa de um típico bairro burguês, como seriam felizes se vivessem igualmente a mulher que se despede do marido no dia de trabalho. Onde teriam comida, casa arrumada, roupa limpa e dinheiro para consumir nos seus prazeres. Numa assertiva irônica ao final do devaneio: “Eu farei isto! Nós conseguiremos uma casa, nem que eu tenha que trabalhar para isto!”.
  Concluímos que apesar de todas as divergências e caminhos trilhados pelo homem- personagem em busca de ‘conforto’, felicidade e um bem-estar significativo diante da sociedade em que vive. Teria sido a mais singular das revoluções que o homem absorvera diante da nova perspectiva mundial. Aonde a vinda do progresso, do enriquecimento, da competição e individualização seria o grande lema ou regra dos Tempos Modernos. 

segunda-feira, outubro 31, 2011

Rapsódia de um coração congelado, por Wagner Bezerra Pontes

Nicholas Rodney Drake




Eram cinco horas e trinta minutos da manhã quando o galo começara a cantar. O sol pendia de lado espalhando seus raios embaraçados de luz. O vento começara a acordar das árvores, e suas folhas dançavam sob os finos e grossos galhos, sedentas de paixão iluminada. Onde um pequeno ninho cercado de inábeis passarinhos pelados grunhia e escancaravam suas imensas bocas por comida matinal. O céu completava o quadro com seu azul torneado de brancura chantilly almofada.

O primeiro pensamento do dia surgira como um nevoeiro cinzento: ‘Que dia será hoje?!’. Olhara o relógio ao lado da cabeceira de madeira enervada de aparente cupim, e se dera conta de que não soubera onde estivera e o que tivera feito na noite anterior, que o deixasse completamente amnésico na manhã seguinte. Subitamente vestira uma calça jeans a qual estava jogada ao lado da cama, uma camiseta preta com um desenho de um labirinto incompleto, e completando o movimento com um olhar rápido ao espelho, o desespero ao notar sua ausência vaga e distante no material. ‘Meu Deus, que diabos está acontecendo comigo?!”

A respiração prontamente se confundira com a cor e o teor virulento do quarto abafado pelo calor do sol que começara a crescer. Uma mistura incandescente de desejo e medo transitava pelos nervos de sua boca e de seus olhos, os quais agora admitam a absurdidade insustentável daquela manhã trancafiada pelo quarto. Consigo pensara mais uma vez: ‘O que está acontecendo?!’ Flashes começaram a nocautear sua mente. Uma rua deserta. Uma esquina e pessoas a correr. Corpos estirados. O chão entreaberto. Marcas de sangue. Não saberia distinguir a beleza daqueles seres que se expurgavam do solo ao céu, sobrevoando sobre suas sombras e aparentemente sem rostos. Algumas de leves e apodrecidas capas negras, como se uma besta estivesse à solta procurando um leve sorriso dourado para entornar a escuridão. E uma leve chama cinzenta saíra de sua pele ao tocar num metal. A sede. E o cheiro.

Ah! O cheiro, que impregnava como uma queimada da alma dentro de um forte e vermelho desejo. Este que não cessava nem mesmo depois do sabor quente e amargo do velho vinho e do beijo. Seus olhos forçaram uma expiração, o qual não conseguira destilar de sua alma. Então, tivera a complexa certeza de que tudo agora se resumia ao sangue e um coração sob a mesa.




quarta-feira, outubro 12, 2011

‘A CERCA NÃO ESTÁ SÓ LÁ FORA, ESTÁ NA SUA CABEÇA!’, por Wagner Bezerra Pontes


Desta vez abro uma nova seção no blog, onde pretendo fazer análises de filmes que assisti e gostei. Começarei em homenagem ao Dia Mundial das crianças,  uma análise acerca do filme Fuga das Galinhas (Chiken Run,2000). O qual num primeiro momento se reflete numa perspectiva de filme de 'teor infantil', com a 'simples intenção' de entreter a criançada. Não obstante, toda a produção contemporânea da sétima arte, não têm buscado mais o simples devaneio (ou alienação), entretenimento, sem que um viés critico seja abordado mesmo que de forma implícita sobre o comportamento do ser sejam eles sociais, políticos ou ideológicos. Mas a simbiose da fantasia (entretenimento) e com o viés filosófico, no stricto sensu de que a filosofia serviria como a busca pela compreensão e conhecimento das coisas que cercam o homem. Tornando-se ação na forma de como o sujeito daria significação a sua existência. Assim como uma luz na escuridão combate toda a negritude do espaço para tornar-se caminho e razão funcional.

Download do filme: A Fuga das Galinhas


‘A CERCA NÃO ESTÁ SÓ LÁ FORA, ESTÁ NA SUA CABEÇA!’


O filme de animação Fuga das Galinhas (‘Chiken Run’ Direção de Peter Lord e Nick Park, 2000; 84min), passa-se na década de 50 numa granja chamada Yorkshire, onde a galinha líder Ginger busca incansavelmente uma maneira de sobreviver ao destino trágico, aos quais seus donos pretendem dá-lo, ou seja, transformá-las em tortas de galinha. Sem muito sucesso na empreitada eis que surge o “herói” o galo, Rocky. O qual tem a ambição de ajudar na reviravolta da vida das galinhas, ensinando-as a voar.

Sabendo que a partir da Revolução Industrial do século XVIII surgiram transformações sociais, políticas e culturais e que fora o ponto máximo para o surgimento da Sociologia como ciência no século XIX. Esta que buscava o entendimento e a reflexão acerca da ‘nova sociedade’ (industrial) constituída por uma nova classe dominante, a burguesia.

O filme retrata uma época anterior a moderna, onde antes a classe dominante seria os senhores de terras e a classe subjugada seria a dos trabalhadores rurais, isto é, os servos, denominados por Karl Marx na era Industrial de proletariados, ou seja, os operários que movimentavam o desempenho útil da fábrica. No filme as galinhas presas e mantidas sobre o poder da família Tweedy para o abatimento e produção da mercadoria final, a torta de galinha, são consideradas as operárias descartáveis da Indústria vigente. Já que sempre haveria uma grande demanda de renovação de operários encarregados das suas devidas funções. E no caso destas a sua produção estaria na fabricação de seus próprios ovos para venda e consumo do ser humano e a reprodução gradativa de galinhas no poleiro. Dando continuidade a todo maquineismo industrial.
Quando a líder da comunidade do galinheiro, a Ginger, se desdobra nas tentativas de mudar a situação de opressão em que todas vivem na granja. Esta atitude seria mais uma metáfora do surgimento da organização de trabalhadores em associação de sindicatos na busca pelos direitos e interesse da classe operária, reivindicando o bem- estar trabalhista.

Por variadas tentativas de escapar do sistema social em que se encontram, eis que de repente surge um ‘herói’ capaz de revolucionar as mentes e vidas delas, com o objetivo de libertá-las da opressão. Pois para Marx não seria a consciência que determinaria o estado do ser, mas o ser incluído no social teria a capacidade de determinar tal mudança na consciência. Então após o conhecimento de toda a revolta e dos planos falhos desenvolvidos pela própria comunidade, o personagem Rocky surge como uma espécie de visão ou mente externa a todo o sistema em que se encontram as galinhas. De forma a alertar que sempre existe uma saída ou uma resolução para os problemas, bastaria analisá-los sob outra perspectiva.

Desta forma a frase enunciada por Ginger: “A cerca não esta só lá fora. Ela está em sua cabeça”, vem para afirmar a tese de Marx, a qual nos diz que para explicar a consciência era necessário um conflito de existência entre a força produtiva (operários) e as relações de produção (empresariados). Onde tal força produtiva que é capaz de gerar condições materiais, estas a quais gerariam obstáculos nas relações de produção, assim criando a consciência do conflito existente entre ambas, sendo capaz de entrarem na luta pare tentar resolver os problemas existentes. É aonde viria à produção na construção de uma maquina (espécie de catapulta) capaz de colocar todos fora da cerca em que vivem.