Mostrando postagens com marcador Ernest Hemingway. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ernest Hemingway. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, abril 06, 2012

O velho e o mar (The old man and the sea), de Ernest Hemingway

 Amigos leitores e visitantes para não deixar o blog jogado às moscas pela falta de tempo em produzir textos e de dedicar um pouco mais da minha veia artística neste blog, deixo com vocês duas adaptações primorosas da sétima-arte do romance, O velho e o Mar de Ernest Hemingway. É a história de um pescador que, ao passar 84 dias sem conseguir fisgar um peixe se quer, tem a tamanha surpresa de apanhar um peixe descomunal. O qual lhe oferece extrema resistência contra as forças de seus cansados e velhos braços, corpo e espírito.
Não deixe de assistir e ler o romance.

  • A primeira é uma adaptação em formato de Stop Motion, criado pelo artista alemão Marcel Schindler, com um tempo de apenas 4 minutos. É magnifico, vê o processo de criação da história passo a passo, apenas na caneta e no papel. Marcel constrói toda a narrativa, sem fragmentá-la, de forma primorosa. 



  • A segunda adaptação é uma curta de animação Russa que faturou o Oscar da categoria em 2000. O belo filme (19'56'') feito por Aleksandr Petrov, utilizou uma técnica peculiar – pastel sobre vidro em que se utilizou apenas de seus próprios dedos em vez de um pincel, adicionando profundidade nas pinturas. Demorou mais de 2 anos para pintar e fotografar mais de 29.000 frames – as cenas são de uma beleza impecável. 

quinta-feira, junho 23, 2011

Gato na Chuva de Ernest Hemingway



Gato na Chuva

Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas com quem tinham cruzado pelas escadas, no movimento de "entra e sai" do quarto. Estavam hospedados no segundo andar, em um apartamento que ficava de frente para o mar e também de frente para a praça e o monumento de guerra. Havia enormes palmeiras e bancos verdes na praça. Quando o tempo estava bom sempre tinha um pintor com seu cavalete por lá. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento de guerra. Era feito de bronze e reluzia na chuva. Estava chovendo. Gotas de chuva caiam das palmeiras. A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar quebrava em uma extensa linha, na chuva, e deslizava rumo à praia para retornar e quebrar novamente em uma longa linha, repetindo o mesmo movimento. Os carros já tinham deixado a praça, passando pelo monumento de guerra. Do outro lado, um garçom olhava a praça vazia, da porta de uma lanchonete.

A mulher americana, de pé, próxima à janela, observava o movimento. Fora do hotel, bem debaixo da janela deles, uma gata estava encolhida debaixo de uma das mesas verdes encharcadas. A gata se enroscava para não molhar.

- Eu vou descer e pegar aquela gatinha - disse a mulher americana.

- Deixa que eu cuido disso - o marido falou da cama.

- Não, pode deixar que eu vou. Pobre gatinha, tentando se proteger da chuva debaixo da mesa.

O marido continuou sua leitura, apoiado em dois travesseiros nos pés da cama.

- Não vá se molhar - disse ele.

A mulher desceu as escadas e o dono do hotel se levantou para cumprimentá-la quando ela passou por seu escritório. Ele era velho e muito alto.

- Il piove - a mulher falou. Ela gostava do dono do hotel.

- Si, si, Signora, brutto tempo. O tempo está muito ruim.

Ele ficou de pé atrás de sua mesa, no fundo da sala escura. A mulher gostava dele. Apreciava o jeito extremamente sério com que ele recebia qualquer reclamação. Admirava sua dignidade. Gostava do jeito como ele a tratava. Gostava de como ele se sentia honrado em cuidar do hotel. Gostava de seu rosto velho e marcado pelo tempo, e de suas mãos grandes.

Enquanto pensava nele, ela abriu a porta e olhou para fora. A chuva estava mais forte. Um homem com uma capa de chuva estava atravessando a praça em direção ao café. A gata deveria estar por perto, à direita. Talvez pudesse ir por debaixo dos telhados. Ainda estava na porta quando um guarda-chuva se abriu atrás dela. Era a camareira do quarto deles.

- A senhora não deve se molhar - ela sorriu, falando italiano. Obviamente tinha sido mandada pelo dono do hotel.

A americana andou pelo caminho de cascalho, com a camareira segurando o guarda-chuva para que ela não se molhasse, até que chegou debaixo da janela de seu quarto. A mesa estava lá, com um verde brilhante após ter sido lavada pela chuva, mas o gato tinha sumido. De repente, ela se sentiu desapontada. A camareira olhou para a hóspede.

- Ha perduto qualque cosa, Signora?

- O gato - disse a mulher americana.

- Um gato?

- Si, il gatto.

- Um gato? - a camareira riu. - Um gato na chuva?

- Sim - ela disse. - Debaixo da mesa. Eu queria tanto que ela fosse minha. Queria ter uma gatinha.

Quando ela falou em inglês o rosto da camareira se contraiu.

- Venha signora - ela disse. - Devemos voltar para dentro. A senhora vai acabar se molhando.

- Está bem - disse a garota americana.

Elas voltaram pelo caminho de cascalho e entraram pela porta. A camareira ainda ficou do lado de fora para fechar o guarda-chuva. Quando a garota americana passou pelo escritório, o padrone fez um gesto de cortesia, de sua mesa. A garota sentiu como se houvesse algo bem pequeno e apertado dentro de si. O padrone fez com que ela se sentisse insignificante e ao mesmo tempo muito importante. Subiu as escadas. Abriu a porta do quarto. George estava lendo, na cama.

- Conseguiu pegar o gato? - ele perguntou, abaixando o livro.

- Não, sumiu.

- Para onde será que ele foi? - ele perguntou, tirando os olhos do livro.

Ela sentou na cama.

- Eu queria tanto aquela gatinha. Nem sei porque queria tanto. Queria aquela pobre gatinha. Deve ser horrível ser uma gatinha indefesa nessa chuva.

George estava lendo de novo.

Ela caminhou e sentou-se na frente do espelho da penteadeira, olhando para si mesma, com um espelho na mão. Estudou seu perfil, primeiro de um lado, depois do outro. Então estudou a parte de trás de sua cabeça e sua nuca.

- Você não acha uma boa idéia deixar meu cabelo crescer? - perguntou, olhando novamente seu perfil.

George olhou e viu sua nuca, raspada como a de um garoto.

- Gosto dele como está.

- Estou tão cansada deste cabelo - ela disse. Estou tão cansada de parecer um rapaz.

George mudou de posição na cama. Ainda não tinha desviado os olhos dela desde que havia começado a falar.

- Você está bem bonitinha - ele falou.

Ela colocou o espelho na penteadeira e foi para a janela e olhou para o lado de fora. Estava escurecendo.

- Quero puxar meu cabelo para trás, bem preso e liso, e fazer um coque bem grande para que eu o sinta. E quero uma gatinha para sentar no meu colo e fazer ronrom quando eu fizer carinho nela.

- É - George disse da cama.

- E eu quero comer em uma mesa com meus próprios talheres e quero velas. E quero que seja primavera, quero escovar meu cabelo na frente de um espelho e quero uma gatinha e roupas novas.

- Ora, cale a boca e vá ler alguma coisa - disse George. Ele estava lendo de novo. Sua esposa estava olhando pela janela. Agora o céu estava bastante escuro e a chuva continuava caindo nas palmeiras.

- De qualquer modo, eu quero um gato - ela disse - Eu quero um gato. Quero um gato agora. Se não posso ter cabelos compridos nem uma distração, posso ter um gato sim.

George não estava ouvindo. Estava lendo seu livro. Sua mulher olhou pela janela e viu que a luz da praça estava acesa.

Alguém bateu na porta.

- Avanti - George disse. Ele levantou os olhos do livro.

A camareira estava de pé na porta. Ela segurava um grande gato malhado, apertado fortemente contra seu corpo.

- Com licença - ela disse - o padrone mandou trazer isso para a Signora.

Referência: HEMINGWAY, Ernest. Cat in the rain. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 1988, p. 5-15.