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terça-feira, maio 07, 2013

Conversas Hermannianas sob o sol da estepe, por Wagner Bezerra

IMAGE By Nego Miranda
Conversas Hermannianas sob o sol da estepe by Wagner Bezerra Pontes


A vida é um mar e eu um barco maresiado. Acordei sob o peso de elevar minhas pernas por causa de um sentimento abstrato. Enquanto decidi me vestir e sair só, o sol ardia sem fazer as pestanas cerrarem amarguradas. Regras de todos os dias. Caminho sem pressa, sem desejo e vejo minha restia seguir a frente de meus presságios. Cada um que passa por mim. 

Aspiração. Transpiração um retrato. A senhora a carregar setenta tempos num respirar fragilmente assaltado. O cachorro a transpirar sob os aspectos de uma putrefação. O homem de rosto ovalado, bigode e cabelos ralos consome o dia com os olhos afogados. O dia se alimenta das esperanças, sonhos, medos, tristezas, alegrias e ninguém sabera ao certo quando chegará e quem ele é. Mas se vive, e nas cirunstâncias de que o silêncio não os acorde do mais leve pesadelo. Assim mantêm as mais ínfimas conversações, as mais pérfidas reflexões, sob as horas o sol o ar o correr do sangue por entre as veias. Movêm-se sem ritmos, enérgicos, abastados pelas estradas sem pistas escritórios, comércios, fábricas...

Onde estão as forças das máquinas embevecidas no caos da fina linha?! Na mais tênue e opaca fresta do dia?!... Uma vida que permeia na linha da continuidade eterna, o mesmo fluxo errante que nos observa. Nos cega e sem visa sobre a desesperada e solitária estupidez humana, encontro protegido sob os braços de uma árvore ao cruzar a ponte Nassau, o lobo, que com verocidade come a própria cauda e uiva diante da vil paixão animal:
"E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou.”

Numa expiração cerrara meus olhos, na tentativa de retornar ao ponto contínuo da eterna paixão, mas nada acontecera ao ver que ela já consumira toda minha ação e o que nos permeia...


terça-feira, janeiro 29, 2013

Recomeço da Preparação de um Romance, by Wagner Bezerra

Image by lrargerich


Pretendo começar outro blog a partir de fevereiro, ou seja, esta sexta-feira. Colocarei um link para que os visitantes e leitores, se é que tenho algum...rsrs Mas o importante é o fato de ter me dado conta do quanto é preciso ter um objetivo a seguir. Gosto muito das coisas que leio e tenho muita vontade de divulgar para que outros de mesmo gosto também curtam o que conheço e leio,vejo, escuto etc. por isso este Blog se perdeu num mar sem fim. Onde meu anseio em compartilhar conhecimento, ou pensamentos de outrem era maior do que o desejo de falar comunicar algo que tremitava em mim. Tentarei dar um espaço a minha voz daqui pra frente a acreditar que posso ser ouvido, entendido e quem sabe reconhecido. O discurso parece um pouco pretensioso, não é?! Mas venho notando que se realmente quero ser algo devo tentar a dar certa significancia naquilo em que acredito e sonho. 

Todos têm e sentem este movimento que corroí incansavelmente o intimo de um pobre ser a ponto de fazer o vil crer na possibilidade de ter algo a dizer, de crer no fruto a ser gerado pela semente jogada na terra com pretensão ou não dando assim razão a essa vida non sense. 

O poder das palavras em especial as minhas, se realmente acredito nelas devo seguir sem temer e sem esperar nada. Apenas semeando de acordo com o vento e o momento, a esperança no homem pode não o matar mas pode o fazer viver demais. Então se não me levar a algum lugar, devo ao menos tentar. Não quero dizer com tudo isso ser a voz da razão! Não! Longe disso, sou o primeiro a acreditar no potencial nato de cada um e na construção de um significado para sua razão de existir. Apenas quero expor a voz mais silenciosa e absurda permanente em mim, constituindo-me como ser pensante e supostamente prático e activo no sentido estrito da palavra, útil.

Portanto, essa fome nunca se apagou por completo é como o fogo de uma vela acesa, derretida e que resite na mais ínfima esperança de ser a iluminação/razão de existir na escuridão universal. Será reconstruído em outro espaço, pois este (BLOG) talvez já tenha se esgotado na sua paixão e um outro ar é preciso, um outro mundo deve ser aberto, uma nova experiência, uma nova ação. Acredito assim, poder reafirmar ou conhecer essa fome absurda mais profundamente. Quem sabe até realizando uma reação do outro lado do universo enquanto uma lágrima ou um sorriso possa brotar aqui.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Palavras e nada mais ( "o que vês além destes olhos tão irreais?!"), By Wagner Bezerra



 

Ás vezes, me pergunto se eu tenho algum problema... porque p@#$ ... ah queria desabafar com minha Psicanalista [2 semanas sem ir]... Eu sei que não deveria estar reclamando da vida...haha... mas cara, acho que preciso aumentar as doses, estou em frangalhos aqui... desculpem-me estar sendo tão emotivo, expressivo seja o que for e quiserem pensar [acredito que isso aqui não seja nenhum divã, mas...] acredito que deveria ter escrito neste blog [coisa que não faço a cinco anos, desde que comecei minha primeira análise, terapia com Telma Torres...] 

O escritor e amigo (se é que poderia chamá-lo assim, só por ter participado de sua oficina de 5 dias no festival do sesc de arte e educação, muito proveitosa), João Silvério Trevisan, me disse uma vez (não são as palavras exatas deles, mas como as interpretei): 
A psicanálise o ajudou muito numa época de sofrimento, mas que o único refúgio, conselheiro, amigo e etc. para o que ele sentia advinha da escrita sobre o que passava e sentia, o fato de voltar a si mesmo e colocar em sua frente, aquilo que permeava o seu inferno... transfigurar-se. 
Bem... tentar concretizar o abstrato e enxergá-lo melhor, não da melhor forma... Um dia, espero que aconteça de ainda estar vivo e re/lembrar de tudo, e simplesmente rir. Vez outra ainda faço isso, com relação a muita coisa que acontece... é bom rir de si mesmo, de vez em quando, e outras vezes chorar. Pode não trazer a solução, mas alivia a dor... rir destas bobagens que ando pensando, escrevendo e revelando a vocês queridos leitores e visitantes... o que importa é que preciso falar... como preciso de alguém que entenda, porque na psicanálise (PQP) muitas vezes só me faz escutar... sei que eu sou o dono de meu motor e só eu posso dar a partida, ninguém mais, mas o que acontece quando este mundo age da maneira mais absurda... É, nem Albert Camus pôde responder, quero dizer, ele até tentou e me disse uma vez no seu famoso livro O Mito de Sísifo, mas não dei muito ouvidos a ele não, abandonei toda aquela absurdidade... Espero não abandonar esta aqui...

Abraço! ;)

terça-feira, novembro 20, 2012

Solitarios lapis, por Wagner Bezerra Pontes

Image: Peeble by inkee

Solitarios lapis*

Imóvel

áspera
centrada em si.
Recebera toda atenção do ar suspirante,
toda luz do sol,
todos os seres rastejantes
que perpassavam
sobre sua insustentável existência
sólida.


*Título Provisório do latim: pedra solitária

quarta-feira, maio 23, 2012

Incubus, por Wagner Bezerra

Victor Hugo e a angústia do exílio. Guernsey, 1853. Foto de C. Hugo A. Vacquerie. 


Tremia e transpirava apesar de toda aquela clareza e de todo frio. 
Agitava-se em agonia num frenesi constante. 
A luz, crescia sem parar. 
De súbito acordar, constatou a sede e o medo de amar.

domingo, maio 13, 2012

sexta-feira, abril 27, 2012

Le fragment d'un rêve*, por Wagner Bezerra Pontes


Brigitte Bardot


O sol queimava de esperança vazia o meu rosto. A varanda, cinco pessoas. Dois rapazes conversam sobre amores. Volto meu olhar para um lado, o esquerdo. No fim dela, eis um rapaz sentado no batente da sacada. O prédio e sete andares. Ele acompanhava as duas lindas mulheres numa conversa amarga. Instinto ou impulso, percorre meu corpo em direção a uma delas e sem ser notado a observo, vejo e olho suas linhas, suas costas, seu pescoço. Num gesto de tirar o cabelo do rosto e pôr no ombro toda a imensidão da exata certeza de quem deseja amar. O cheiro, o sabor doce emanado dos montes. Enquanto a surpreendo suave, abraço e a toco levemente. Minhas mãos, meus braços em uma volta. E como uma pluma o chão reconforta as suas pernas. Um jorrar me impele a beber o seu gosto salgado, denso como um mar brincalhão, revigorado ao acordar de uma noite intensa e fria de tempestades por causa de um sol ressacado de energia e suor...


*Le fragment d'un rêve, do francês é, O fragmento de um sonho.

domingo, abril 22, 2012

Dialogismo cubasiano, por Wagner Bezerra Pontes

Simone de Beauvoir
Acabei de me dar conta... de que uma amiga me amara há dois anos e meio, silenciosamente... Acabei de me dar conta... Ela decidira sumir de minha vida, não liga, não manda mais recados... não responde nada, simplesmente me apagara como... O problema, é ela não ter me dito, nada - eis eu pensando como um Casmurro Maldito... E por que me dou conta disto, só agora?! Vós, podereis me perguntar... Durante alguns dias e semanas de alguns dialogismos, controvérsias, altercações alegres e filosóficas com o Brás Cubas, eis que o defunto me diz: 

"Saberás que teu amor chegara, no momento em que os olhos soberbos dela tiverem o defeito de não se arrancarem de ti, Monsieur!*" 

Fiquei estupefato com tal relato e acabei me dando conta de que os olhos daquela flor, esmeralda, ou melhor dizendo, amor. O seu olhar. Minha pele nunca se machucara, nem se quer um arranhão... Ah Desgraça!!!... Sinto sua falta, e espero que um dia leia isto aqui! Com um verdadeiro sentimento de escassez por não ter tido atenção. Eu também te amo, já lhe disse uma vez! 

*Monsieur do francês é senhor.


terça-feira, março 13, 2012

O absurdo germinal, por Wagner Bezerra Pontes

O Duplo de Rene Magritte.
  Antes de ontem acordei numa madrugada de um sonho no qual falava numa verborragia incessante... Não lembro bem 'sobre o quê', mas ao acordar com o som das minhas próprias palavras e de modo mecanicista, algo que me deixou confuso/reflexivo por toda manhã seguinte e um pouco estarrecido com tal situação. Não acredito, mas não me pareceu em momento algum ser eu, o eu daquelas tais "evangelizações" (sermões). Digo isto de tal palavra, no remeter ao sentido de "pregação" (declamação), convencimento a ideias de produzir um efeito de ativismo em outrem. E declaro antes de tudo que não tenho religião alguma, para citar tais termos dos quais alguns poderiam pensar em ser e considerar minha fala, dotada de um certo "proselitismo religioso". Lembro que no sonho falava com duas garotinhas aparentemente com seus 8 anos, não tenho a lembrança do 'porquê', mas eu não consigo lembrar de maneira alguma o quê falava com tanto vigor e absurdidade para aquelas pobres crianças... 

  Como dizia Gaston Bachelard, em A água e os sonhos:
'As forças imaginantes da nossa mente desenvolvem-se em duas linhas bastante diferentes. Umas encontram seu impulso na novidade divertem-se com o pitoresco, com a variedade, com o acontecimento inesperado. A imaginação que elas vivificam tem sempre uma primavera a descrever. Na natureza, longe de nós, já vivas, elas produzem flores. As outras forças imaginantes escavam o fundo do ser querem encontrar no ser, ao mesmo tempo, o primitivo e o eterno.'

  Então fico a me perguntar inconstante: 'Será que essa força verborrágica exalada do fundo mais escasso de meu ser, é o eu primitivo e eterno (metafísico), querendo dominar o ser absurdamente mítico de minha existência germinal?!!...'

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Um pé de mangueiral, por Wagner Bezerra Pontes


Praia de Tamandaré litoral sul de Pernambuco.


18-03-12

Acordara às cinco e meia, maldita hora que me persegue desde que me invento a escrever. Uma intensa chuva cai sobre nós e por entre as janelas de vidro as gotículas se formam minimamente a escorrerem macias pela superfície, como quem deseja ser pego por entre mãos e pernas em brincadeiras de meninice. Um clima abafado tentara consumir o ar em que mal os olhos sustentara o despertar. Esperávamos cientes, impacientes pela recuperação do sol gripado de beleza dégradé. Um anseio corroia aquela mais maçante desgastada e experiente vida, somos dois pardais, uma loba perante uma anciã tartaruga carregada de segredos e histórias a contar. O carro não chegara no horário previsto. Malas prontas carregadas de energia ansiada em ser gasta até a ultima gota. Uma torrente cai sem parar, durante meia hora seguimos estrada adentro sem imprevistos, engarrafamentos. Uma onda de calmaria e satisfação começa entornar o ambiente. A grande culpa talvez venha a ser dos montes, dos céus os quais por ora nublados, ora encharcados de suor e dos campos verdes que transbordam diante de nossos olhos demasiadamente sedentos por cor, vida, amor. O espírito já não suporta mais tanta emoção e se contorce, revira dentro da caixa corpórea buscando um leve suspiro/redenção para tanta sede, fome, razão.

Um caminho de uma reverencia inesperada surge com sua rigidez, ornamento e beleza natural. Fôramos cercados por um corredor imenso de bambus que nos espreitavam com sua polidez sensata de guardiões da terra e do mar. Prosseguimos inertes, imersos dentro do carro pelo esverdeado brilho da estrada aparentemente sem fim. Até o encontro com o nicho que nos esperava para abrigar os dias que seriam consumidos num pôr dor sol, reconfortando e ajudando-nos a saciar a sede insustentável.

Uma leve caminhada na areia da praia amaciara os pés cansados da concretude cimentária do subúrbio abandonado. O vento teimava em lamber o rosto, os cabelos e os pulmões anestesiados de tanto ar revolto. As ondas rebatiam sua felicidade espumante na areia entre as pernas das crianças e seus castelos-mar. Os quais imediatamente foram consumidos sem chances de respirar.

Corpos grandes, pequenos, cheios, vazios, duros, macios, novos, velhos puderam se perder e se olhar nas ondas do raio solar resfriado. Pequenos seres de focinho comprido, curto, úmidos, pêlos estirados, encaracolados ladram felizes a companhia do som-mar. E neste momento lembro de minha amiga canis que não pude trazer por motivos de locomoção. Imagino-a correndo, respirando a maresia, e diante de tamanha surpresa ao encontrar uma grande quantidade de água salobra, recear molhar as patas de felicidade perante o desconhecido e encantado espumar das ondas.

O corpo começara a ceder aos encantos de Morpheu, caminhara por entre os sons maquinários de trombetas, saxofone, bumbos e trombones do carnaval. Onde o retorno aos jardins suspensos perceberia a inusitada visita de dois viajantes, os quais procuram, perto de um pé de mangueiral, alguma coisa que os deixe mais lindos num eterno mural, um lindo casal de Pica-Paus. A sensação de que o ano começa bem e algo mais falta no coração é sentida com o calor da noite de verão. E transpirando sede, como um pássaro entornado descansa sua cabeça, seu corpo e sua alma com uma certeza marcada na nostalgia de uma paixão.


sexta-feira, dezembro 09, 2011

O Sol,um vaso e a flor, por Wagner Bezerra Pontes




Fragmento de texto por Wagner Bezerra Pontes

O dia fluíra numa alga marinha solta e perdida sob as ondas do mar. E toda aquela existência salobre dos arrecifes brilhara nas retinas a lembrança de um vaso e sua flor esquecidas no fundo do jardim de uma casa solitária. A qual buscava com toda delicadeza a retirada de sua poeira existencialmente marginal, no intuito de resplandecer o ar mais puro a aquela humilde e amaldiçoada princesa.

Uma gata caçava um pequeno rato, o qual desobedecera às regras de seu submundo. A prole felina dormia tranquila sob uma caixa de papelão travestida de veludo. E enquanto observava o silêncio da estrada, dos carros, das arvores, do chão e do vento. Um sussurro, quem dera, pudera invadir seu pensamento: 'Te quero!' Mas os olhos cada vez mais fatigados de cansaço e solidão, perguntariam de onde viera toda aquela ação. E num expirar de sua mão, descansara o lápis sob a mesa, ao brotar uma deliciosa e insustentável leveza: 

'Não, ela nascera como o primeiro raio de sol de uma manhã indecifrável aos olhos de uma criança abandonada, teimando ter forças para queimar seu coração petrificado. Diante das consequências camusianas que sofrera, e de toda aquela sua imensidão estrangeira. Não pudera ver mais, respirar mais, sentir mais. E como uma rocha que fizera de seu ar, o seu relicário. Decidira correr ao ver a última fração de moléculas e cristais suspensos, subira as escadas do infinito para tentar vencer a tempestade que teimava transbordar do copo de sua alma-inimigo...'



segunda-feira, outubro 31, 2011

Rapsódia de um coração congelado, por Wagner Bezerra Pontes

Nicholas Rodney Drake




Eram cinco horas e trinta minutos da manhã quando o galo começara a cantar. O sol pendia de lado espalhando seus raios embaraçados de luz. O vento começara a acordar das árvores, e suas folhas dançavam sob os finos e grossos galhos, sedentas de paixão iluminada. Onde um pequeno ninho cercado de inábeis passarinhos pelados grunhia e escancaravam suas imensas bocas por comida matinal. O céu completava o quadro com seu azul torneado de brancura chantilly almofada.

O primeiro pensamento do dia surgira como um nevoeiro cinzento: ‘Que dia será hoje?!’. Olhara o relógio ao lado da cabeceira de madeira enervada de aparente cupim, e se dera conta de que não soubera onde estivera e o que tivera feito na noite anterior, que o deixasse completamente amnésico na manhã seguinte. Subitamente vestira uma calça jeans a qual estava jogada ao lado da cama, uma camiseta preta com um desenho de um labirinto incompleto, e completando o movimento com um olhar rápido ao espelho, o desespero ao notar sua ausência vaga e distante no material. ‘Meu Deus, que diabos está acontecendo comigo?!”

A respiração prontamente se confundira com a cor e o teor virulento do quarto abafado pelo calor do sol que começara a crescer. Uma mistura incandescente de desejo e medo transitava pelos nervos de sua boca e de seus olhos, os quais agora admitam a absurdidade insustentável daquela manhã trancafiada pelo quarto. Consigo pensara mais uma vez: ‘O que está acontecendo?!’ Flashes começaram a nocautear sua mente. Uma rua deserta. Uma esquina e pessoas a correr. Corpos estirados. O chão entreaberto. Marcas de sangue. Não saberia distinguir a beleza daqueles seres que se expurgavam do solo ao céu, sobrevoando sobre suas sombras e aparentemente sem rostos. Algumas de leves e apodrecidas capas negras, como se uma besta estivesse à solta procurando um leve sorriso dourado para entornar a escuridão. E uma leve chama cinzenta saíra de sua pele ao tocar num metal. A sede. E o cheiro.

Ah! O cheiro, que impregnava como uma queimada da alma dentro de um forte e vermelho desejo. Este que não cessava nem mesmo depois do sabor quente e amargo do velho vinho e do beijo. Seus olhos forçaram uma expiração, o qual não conseguira destilar de sua alma. Então, tivera a complexa certeza de que tudo agora se resumia ao sangue e um coração sob a mesa.




terça-feira, setembro 06, 2011

Memorial de um canis bestificado - parte II



Há uns três anos, para ser exato: acredito que no final de novembro de 2007, começara um tratamento intensivo, uma batalha árdua contra todos os demônios conhecidos ou não. Apenas enfrentados com garras e urros e sem voltas a dar nos parafusos. O mundo simplesmente nunca fora o mesmo, e todo aquele amor construído por toda uma vida se esvaíra como a água do mar recolhida para uma piscina de areia cavada a balde e muita transpiração.

Num sábado ensolarado onde a chuva trelava em brincar sob as nuvens, eis que passo pelo Mercado da Madalena, típico ‘mercado de bairro’ famoso por suas atrações de entretenimento, bares, comidas típicas da região Nordestina e muito mais. Avisto de longe uma singela jaula pequenina, onde pequenos ‘ursos de pelúcia’ dormiam calmamente. Talvez o calor, ou a tenra idade dos pequeninos seres, ou quem sabe a tristeza em seu olhar tenha me chamado a atenção. De modo que, andava cativo por um afago, acredito que toda forma de trabalho com o autoconhecimento gere uma aguda sensibilidade diante das coisas. Um sentimento de pena ou compaixão com aqueles, explicitamente explorados pela ambição demasiada do homem fizera surgir um sentimento, uma vontade, um desejo, um ter, um sentir de vida em minhas mãos. Não uma vida como a do machado raskolnikoviano sentira pulsar por entre as veias da pobre velha, mas uma vida a qual deseja submergir do fundo do mar num sufoco por litros e litros de ar. Seu pequeno focinho arredondado, pêlos levemente enroscados e amarelados, olhos que mal abriam à enxergar a beleza e feiúra deste mundo caduco e cruel sem opção.

Por um mês de idas e vindas na busca de um equilíbrio extraordinário, afinal quem é perfeito?! Um só desejo me consumia, pois é engraçado pensar que repetindo o que disse antes: acredito nunca ter sido adepto de afeição por animais de estimação. Talvez não houvesse a necessidade em compartilhar meu amor com alguém ou alguma coisa além de meus pais e meu mundo/vazio, no sentido de sentir essa brancura, já que tal estado racionalmente não é possível, pois ‘ser vazio’ numa imensidão onde tudo poderia ‘ser preenchido’ não teria tal razão para tal ato ou des-posição.

Sempre quis e confesso que, embora os maus olhos venham a me devorar, acredito na interligação das coisas, as quais povoam todo o universo e para explicar melhor tais preceitos nos quais conheço e ‘tenho fé’, talvez fosse preciso mais algumas ‘digressões’, estas que não farei, num mundo o qual me fascina tanto quanto a comunicação: a Física.

Mas o ponto final e importante é a de que no dia vinte quatro de Dezembro algo veio para mudar radicalmente a mim e minha família, surgira materializado meu antigo e juvenil medo a minha frente: de olhos tristes, pêlos negros aonde não cabiam mais, focinho comprido, corpo quente e pequeno o qual cabia inteiramente em uma mão, uma poodle: Nina.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Memorial de um canis bestificado - parte I


Confesso que em menos de quatro horas tenha me deparado com assuntos semelhantes de escritores geograficamente despolarizados neste universo de bits e bytes: um do sul outro do norte. Já que a forma como os dois escritores teceram suas memórias acerca de seus animais de estimação passado é simplória, como quem bate uma conversa quando pergunta a hora ao vizinho que espera ansioso a chegada de um ônibus, ou um diálogo banal numa manhã sonolenta numa padaria em seu ritmo 'quotidiário'. E resolvi seguir a mesma linha, ou tema. Tentarei aqui escrever coisas de um passado, mas acredito que de alguma forma minha mente bloqueie as lembranças e memórias no momento deste processo manual. Não se surpreenda caso meu relato venha a tornar-se um pouco ficcional.  Pois tal ato de expiração, seria só mais uma justificativa de dispositivo em forma de exercício prático, em quando penso na expressão 'escrever'. Eis minha impressão:


Dos meus cinco, seis anos de idade até a pré-adolescência a lembrança que tenho é de um tremendo medo de cães. E refletindo repentinamente, acredito nunca ter sido adepto de afeição por animais de estimação. Talvez não houvesse a necessidade em compartilhar meu amor com alguém ou alguma coisa além de meus pais e meu mundo. Já que nesta idade, é comum acharmo-nos seres poderosos e sábeis diante de um mundo onde só os grandes predominavam. Como um aprendiz de feiticeiro acreditando cegamente no poder do velho pó mágico de Merlin.

Lembro-me dos meus primos (por parte de pai, filhos de sua irmã, assim sendo seus sobrinhos), sempre que ia visitá-los já imaginava toda a cena: Subir os degraus dos três andares, das escadas que mais lembravam um caracol ou uma espiral de caderno gigante solta ladeira abaixo capaz de deixar qualquer um tonto. Mas fascinante para qualquer criança como eu na época, ver os degraus daquela escada singular por ângulos ligeiramente finos com terminações largas, aqui se semelhando a uma escada típica. Num misto de medo, ou receio de pisar em falso e cair rolando degrau abaixo. Chegar à porta, tocar a campanhinha e escutar o latir daquele maldito cão. ‘O pequinês’. Cão, o qual não tinha tamanho de tão pequeno e de agudo irritante, mas de uma brabeza semelhante a qualquer pitibul.  Claro que nessas horas meu pai sempre dizia: ’Calma não precisa ter medo, ele só morde se você demonstrar. ’ Como uma criança faz para não sentir tal terror diante de tamanha filosofia canis?! Estou invadindo seu território, fui avisado de que não devo mais me aproximar, um passo a mais e acabaria a história.

 A minha relação com cães sempre fora meio caótica, além desta cena, quem nunca teve primos gozadores?! Em se tratando de um medo juvenil, quando íamos comprar chicletes ou doces na venda a uns cem metros do prédio, perto de um casarão de aspecto Edgardiano e seus contos extraordinários. A diversão e o medo faziam com que nossas mentes flutuassem mais que bolha de sabão. Havia à hora marcada para a liberdade de tal ser, e pensando bem, não entendo ‘o porquê’ de sempre no finalzinho das tardes irmos a venda comprar baboseiras justamente na hora do perigo escapar. Meu primo corria de repente a gritar, ‘Corre que Sansão fugiu!!!’ Sem olhar para trás e prendendo todo o fôlego com os chicles na boca, o doce pervertia-se num azedume negro como num dia de tempestade. Tal cena ocorrera, por divertimento de meu primo mais velho algumas vezes, por termos presenciado da varanda um dobermann, que vez ou outra, teimava fugir da tal ‘Casa de Usher’. Que por sorte nunca fora presenciado por mim na infeliz Rua de Domingo a tal liberdade canis.

E quando num final de semana ao irmos para uma praia distante da cidade, brincávamos fascinados com os raios de sol imitando cachorros felizes a pular o espumar e o chiar das ondas, o medo sempre atrai e fascina o homem, e dessa vez surgira o latir de quem menos queríamos companhia no abandono daquela praia vazia. Um cão de rua começara adentrar as ondas, gosto de pensar que talvez fosse para brincar ou quem sabe atraído pela vocalização e urros que fazíamos a beira mar na busca de uma comunicação/entendimento da linguagem familiar. E o medo nos consumira num só modo de fugir como num galope feroz para a rede de proteção fraternal. Os pais a correr e a nos acudir, segurando pelos braços num estúpido aviso: ‘Não corra porque é pior!’ A velha história, ‘se correr o bicho pega e se ficar o bicho come’, mas neste caso ele não pegou e nem comeu!