quinta-feira, dezembro 19, 2013

Quem é o Palhaço? Ensaio por Wagner Bezerra

Monte de irônicos-palhaço simples, 2005/2007. 
Tecido, couro, e a possibilidade de uma pessoa dentro dele. 
Foto: Laura Lima
Por Wagner Bezerra  
"Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades 
teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, 
falei muitas vezes como um palhaço, 
mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria".  
Charlie Chaplin

Incomodo-me [não o incômodo como o mal-estar de um jantar em família que vai de papagaio a vizinha fofoqueira] depois de uma seção psicanalítica e a tentativa de reavivar sobre quais eram os meus sonhos e desejos quando criança. Passei alguns dias com tal pergunta a roer minha cabeça, até que num insight lembro-me de já ter desejado ser palhaço. E fico a divertir-me com lembranças quase esquecidas, como das vezes em que adorava imitar os outros, ou quem sabe ficcionadas (imaginadas). Já que, a memória sempre nos prega peças quando queremos enxergar no escuro ou sair de um labirinto falso. 
  
   No entanto, o questionamento inicial e titular desse pretenso ensaio se deve não só a minha memória cogitada, mas também ao encontro casual de uma reportagem sobre a artista plástica Laura Lima. A qual em 2012 teve uma performance peculiar no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e bastante instigante com o seu ser: Palhaço com Buzina Reta - Montes de irônicos (vide foto acima).
 
  A palavra Palhaço (segundo o Wikipédia) é derivada de paglia da língua Italiana e significa palha. O nome (palhaço) era usado porque a  roupa desse indivíduo/personagem era também feito do mesmo pano e revestimento de colchões, a palha. O revestimento com a palha protegia os artistas fantasiados das quedas, trapalhadas e estripulias nas apresentações. O clown de origem inglesa no século XVI, significava camponês. De acordo Jaques Lecoq (1987, p.117), na tradição do circo, o clown era como um acrobata, malabarista ou trapezista, e depois, passava-se a ser o próprio clown.
"Muitos jovens desejam ser clowns; é uma profissão de fé, uma tomada de posição perante a sociedade: ser esse personagem à parte e reconhecido por todos, pelo qual sentimos um vivo interesse, naquilo que ele não sabe fazer". (LECOQ 1987, p. 117).
  Para Aristóteles em Poética (2003), a comédia tem o caráter fundamental de imitar os maus costumes dos homens, "não contudo de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso que é o ridículo". Já que, o ridículo consistiria no defeito, tal como o exemplo "da máscara cômica feia e disforme, que não é causa de sofrimento"(2003). Sendo assim, o palhaço ser aparentemente corajoso e ingênuo, é capaz de demonstrar suas maiores fraquezas e enfatizá-las usando roupas extravagantes, exageradas  um nariz protuberante e aceitando-se como é, tolo/ridículo. 
    
   Nascida em 1971, no interior do estado de Minas Gerais em Governador Valadares a 320 km da capital, e formada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também foi aluna da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, ela trabalha e vive no Rio de Janeiro. Laura diz que o sentido das coisas na vida, no cotidiano do homem podem refletir muito na razão de ser humano perante o mundo. E a tentativa de sempre desconcertar 'indivíduos normatizados' e aguçar os sentidos do público fazendo-os refletir sobre o papel/função de cada objeto/coisa/ser/entidade no meio em que vivem, é fundamental para que suas exposições tenham um real valor artístico. O que reflete muito do caráter desassossegado dessa grande artista.
    
     Imagine comigo se num dia a dia ao andar pela rua, ou ao subir num ônibus ou melhor, ao visitar um museu você encontrasse(deparasse) com um palhaço sentado no chão sem se mexer, sem contar piadas, sem ser aparentemente o Idiota dostoiévskiano. Qual seria a sua primeira reação?! Muitos diante de tal performance ficariam incomodados, talvez, outros alegres e os mais ousados, talvez até revoltados com aquele ser "anônimo" e singular estático no chão. Anônimo pelo fato dos visitantes não conseguirem identificar inicialmente a identidade que recria um ser/personagem que não faz parte do (daquele) mundo real. E que mundo real seria esse? Aquele do qual não se foge das convenções sociais?! Já que, pela lógica comum o palhaço seria alguém "meio inocente" e capaz de nos fazer rir, entreter, e não nos "assustar" ou nos fazer pensar sobre sua identidade e razão existencial. Palhaço é igual a entretenimento. Eis a palavra tão mitificada para esse ser.
   Mas novamente a pergunta: 'Quem é o Palhaço?!'. Na reportagem que me deparei na Revista Bravo Março de 2012, Laura Lima diz que estipulara regras para a performance. Primeiro, não é a própria artista que faz a performance, mas outras pessoas encarregadas de performá-la. Na exposição no MAM dois jovens se revezavam num período de 8 horas. Eles tinham de se livrar da fantasia na frente dos visitantes causando um novo impacto revelando a suposta identidade do palhaço. O performer precisaria ficar numa posição relaxada, mas imóvel, pelo maior espaço de tempo possível. Ele só poderia se mexer quando necessário e de forma discreta. Não poderia falar. Poderia buzinar, mas não na presença de um visitante do museu, e de forma sutil. Pelas palavras de Lima: “Não estou atrás de entreter o público”. Mas sabe/acredita que uma obra depois de criada e lançada já não lhe pertence mais. E tudo pode vir a fugir do controle (ideia) previsto por ela. (veja no fim do ensaio um video sobre outro trabalho interessantíssimo de Laura Lima, Wheelchairs)
   
   "O que toda essa conversa sobre palhaços e sua identidade me leva a concluir?"(Pergunta o leitor corajoso e enfadado por não achar graça nenhuma nesse artigo...). Mas pense comigo, tanto no cinema quanto nas artes plásticas, me arriscaria a dizer até na Literatura, o palhaço ainda exerce um misterioso encanto. Seja para rir ou para assustar (no caso os filmes de terror). Mas poucas perguntas existem e que só os mais desassossegados ousariam fazê-las: 
'Quem seria/estaria por trás de uma máscara colorida e caricatural do homem que como criança absorve freneticamente um estado de euforia e zombação de uma personagem paradoxal?
  Sim, paradoxal porque além de bizarra (com suas vestimentas e aspectos físicos exagerados como, o nariz avermelhado e o pé grande como o de um pato) caricata, atrai e seduz o homem para um leque de zombaria alheia e de si própria. Já que, é a representação da falibilidade humana, da inadequação com o meio e o outro, faz parte da representação do mais alto grau do considerado ridículo em cada um de nós e na sociedade.  Seria o "inverso da lógica; ele põe em desordem uma certa ordem e permite assim denunciar a ordem vigente [...] Ele não representa. Ele é", Jacques Lecoq. Se ele é simplesmente, então o homem apenas finge que o Palhaço não é ele para rir do outro. Mas sendo ele mesmo, significaria tirar todas as “armaduras”, as “máscaras”, as representações cotidianas e levantar o véu para que todos vejam o seu “lado frágil”, vil e/ou hostil. Não obstante, agora me pergunto porque o palhaço e não o mágico?...

REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES, Arte Poética. Martin Claret, 2003. São Paulo.
LECOQ, Jaques. Em busca de seu próprio clown. "Le Théâtre du geste", org. de Jacques Lecoq, Ed. Bordas, Paris, 1987, pág. 117. Tradução de Roberto Mallet.



2 comentários:

PERSEVERÂNÇA disse...

Feliz quinta-feira!!!
Muitointeressante o texto e as imagens então muito legal.
Abraço fraternal, desejo felicidades.
Nicinha

Wagner Pontes disse...

Olá Nicinha fico feliz pelo seu comentário e que tenhas gostado!

Abraço e felicidades! ;)